Um ano em Itália

Lá estava ela na minha “caixa de entrada”, a mensagem de e-mail que iria mudar a minha vida não só por um ano, mas para sempre: fui aceite na “Università degli studi di Torino” através do programa Erasmus +! A partir desse momento comecei a pensar acerca de onde deveria procurar um sítio para ficar, em que disciplinas me deveria inscrever, que sítios visitar. Mesmo sabendo que provavelmente seria demasiado cedo para tudo isso, eu não conseguia evitar a excitação!

No dia 16 de Setembro lá estava eu no aeroporto, preparada para o que seria a primeira grande aventura da minha vida. Quando cheguei a Milão e me deparei com uma quantidade absurda de pessoas mais bem vestidas que o normal pensei: “Bem-vinda a Itália!”. Poucos passos à frente foram suficientes para ver um grande poster que anunciava a semana da moda de Milão! Nesse momento percebi o porquê de tal apresentação, os italianos são exatamente iguais ao resto do mundo no que toca à moda; “não generalizar” foi uma das primeiras mensagens que aprendi!

No início da minha estadia fiz uma agradável visita geral da cidade de Turim, para além de tratar da “papelada” necessária. Turim é a quarta maior cidade de Itália e tem muito para descobrir. Desde a “Mole Antoniana” (uma belíssima vista panorâmica e o símbolo da cidade), passando por mais de 50 museus, passeios de barco pelo maravilhoso rio Po, o palácio real, os bonitos passeios através da fantástica arquitetura ao mesmo tempo que se saboreia a mundialmente conhecida cozinha local... Eu não percebo porque é que Turim não está nas principais rotas de um visitante a Itália!

Após a relaxada primeira semana, estava na altura de começar a trabalhar. As aulas começaram e eu tinha uma sensação entre ser uma “legal alien” e a “mulher invisível”. Vi-me no meio de uma sala de aula gigante, cheia de pessoas que eu não conhecia e um professor cuja língua eu não entendia na perfeição. Para ajudar, não tinha internet para comunicar com a minha família e amigos ao final do dia, pelo que estava completamente sozinha. De qualquer forma tentei sempre manter uma perspetiva positiva e encontrar soluções para os pequenos problemas que naturalmente iam surgindo. Inscrevi-me num ginásio e aprendi a aproveitar o tempo sozinha.

As coisas foram melhorando a cada semana que passava. Comecei a perceber italiano e a conhecer os meus colegas, que me perguntavam sempre se estava a “dar-me bem” e se precisava de alguma ajuda. A sensação de “fazer parte da equipa” foi muito importante para mim.

Entre a planificação dos horários, mudanças do plano de estudos e dos exigentes dias de aprendizagem contínua, as férias do natal chegaram sem eu dar conta e, com elas, a temida época de exames! Quase todos os meus exames foram orais, que requerem uma preparação mais completa que os escritos. Claro que as minhas férias foram passadas a estudar, ao mesmo tempo que tentava aproveitar ao máximo a companhia da minha família em Portugal.

No dia 6 de Janeiro estava de volta a Itália, com 2 meses de estudo à minha frente. O meu plano de estudos estava desequilibrado porque todas as disciplinas que eu devia seguir em Portugal eram no 1º semestre em Itália, pelo que tive que fazer o trabalho de um ano num semestre. Esses dois meses foram de longe os mais difíceis da vida. E estudava dezasseis horas por dia sem interrupções, compensando que, no final, todo o esforço seria recompensado. E, de facto, foi!  Terminei com sucesso todos os exames e aproveitei a situação para melhorar a minha experiência prática como estudante de veterinária, fazendo três estágios simultâneos e uma disciplina optativa de emergência e cuidados intensivos. Não consigo expressar por palavras o quão realizada me senti no fim deste período tão desgastante.

O segundo semestre chegou, e com ele o trabalho como veterinária “a sério”! Comecei a seguir as minhas professoras de obstetrícia, cirurgia e medicina interna equina e os professores de cirurgia de pequenos animais. Participei em avaliações de sémen equino, controlo ginecológico numa exploração de burras de leite, monitorização de cavalos em cólica, exames de claudicação, intervenções cirúrgicas, incluindo a anestesia e todos os procedimentos de esterilização do campo cirúrgico, e visitas de acompanhamento. Aos fins-de-semana e dias sem “estágio” a aulas na universidade, ía para o maior hospital veterinário de Turim, onde aprendi a fazer recolhas de sangue, cuidar dos pacientes internados, resolver problemas médicos e participar nos cuidados críticos e de emergência.

No fim deste semestre de sonho, embora cansativo, eu não podia acreditar que já estava na altura de voltar para casa. Estava perfeitamente integrada e a sensação de finalizar este capítulo da minha vida fez-me sentir incompleta. Tinha saudades da minha universidade, professores, amigos e família em casa. Todavia, também adorava a minha nova vida e estava viciada na rotina de constante aprendizagem. Despedi-me dos veterinários que segui, sem encontrar as palavras certas para expressar quão agradecida me sentia pela oportunidade que me tinham dado. Disse adeus aos meus novos amigos de “todo o mundo” sem querer acreditar que seria a última vez que os veria. Finalmente, despedi-me do país que me aceitou na sua rotina durante um ano letivo!

Hoje, um ano depois do que penso que foi apenas a minha primeira experiência internacional,  não podia estar mais entusiasmada acerca do meu futuro. Um estudo baseado em diplomados do Reino Unido (Coleman 2011) mostrou que as capacidades adquiridas no estrangeiro foram um fator tido em conta na aquisição do primeiro e seguintes empregos para mais de 70% dos participantes, significante em mais de 30% e determinante em cerca de 10%. As diferentes formas de trabalhar que testemunhei despertaram o meu pensamento crítico e ensinaram-me que existe sempre forma de nos tornarmos melhores.

Esta experiência é certamente uma excelente oportunidade para o crescimento pessoal onde se descobrem e consolidam valores. Permite um constante conhecimento de nós próprios, na medida em que somos confrontados com experiências difíceis e desafiantes e aprendemos a lidar connosco próprios. Após conhecer diferentes realidades, torna-se natural a aceitação mútua. Crescemos eticamente e respeitamos os outros sem sequer questionar a razão.

Sinto-me uma pessoa mais esclarecida e, acima de tudo, melhor.

 

 

Texto: Diana Falcão